Beto Só e uma canção que ficou
Por Olímpio Cruz Neto
No começo dos anos 2000, havia em Brasília uma pequena turma escrevendo canções que grudavam no ouvido. Fernando Rosa, jornalista e agitador cultural à frente do Senhor F – colaborador aqui de CENAS Brasília –, tinha uma palavra para elas: eram “ganchudas”.
Era uma nova geração de compositores e cantores, com trabalho autoral forte e original. E, entre os compositores daquela safra, tem um cara que mora no meu coração: Beto Só, a face musical do jornalista Humberto Rezende.
Beto já havia passado pelos Solitários Incríveis — homenagem, por supuesto, aos garotos de Liverpool — e construía um repertório de belas canções pop. Algumas delas estão entre as baladas mais bonitas que ouvi saídas de Brasília naquele período.
“Meus olhos” é uma delas.
Está em Lançando sinais, disco de estreia de Beto Só, lançado em 2005 pelo selo Senhor F. É daquelas canções que você ouve pela primeira vez, sai assobiando e não esquece tão cedo. Pop perfeito, com letra rica e cheia de significados, mas cuja maior qualidade talvez seja outra: é uma canção autêntica. Sincera.
Quando a ouvi pela primeira vez, fiquei imensamente comovido.
A música começa simples, com um violão de acordes abertos, uma certa atmosfera de pop inglês. Depois entram bateria e baixo, preparando o terreno para a voz marcante de Beto.
E então vêm os olhos.
Primeiro, são “olhos de ódio”. Depois, “olhos tristes”. E é quando Beto canta que esses olhos tristes vão invadir o sorriso de alguém que a canção me pega de vez. Acho essa imagem muito forte.
Há nela alguma coisa do amor que já nasceu condenado, da paixão vista de longe, daquilo que desejamos e talvez nunca tenhamos. Quem nunca?
Quando Lançando sinais saiu, o disco chamou a atenção da imprensa. O Correio Braziliense percebeu justamente essa capacidade de Beto de escrever sobre sentimentos sem cair no lugar-comum: “Parece determinado a falar de amor sem parecer simplório ou impessoal”. A Folha de S.Paulo falou em “bela estreia”. O Jornal do Brasil destacou o “som honesto e letras com forte poética”.
Mas foi o clipe de “Meus olhos” que terminou de fixar a canção na minha memória.
Rodado em Brasília, num bar do Lago Norte, o vídeo poderia ter seguido o caminho mais óbvio: Beto no centro de tudo, cantor, compositor e protagonista de sua própria canção. Mas não é isso que acontece.
Beto abre espaço para o ator João Paulo Oliveira, que forma com Larissa Salgado o casal em torno do qual a pequena história se desenrola. O próprio Beto aparece logo no início, sozinho numa mesa, uma flor à sua frente.
O clipe abre mostrando a banda no palco. Instrumentos, músicos, o ambiente do bar. Depois corta para Beto, perdido sob uma luz, sentado à mesa. A música começa. Quando chega o momento em que o cantor deveria abrir a boca, porém, a voz não sai.
Ele está paralisado. A mulher que deseja está ali, próxima à porta do bar. E está com outro homem.
A ausência da voz transforma a cena. De repente, “Meus olhos” parece ainda mais triste. O personagem observa aquela mulher de longe, enquanto o outro sujeito — interpretado pelo ator e jornalista João Fontoura — permanece indiferente ao sofrimento que se desenrola diante dele.
As pessoas conversam nas mesas. A banda toca. Ela olha para o cantor. A tela se divide. De um lado, os olhos dela. Do outro, os dele.
É uma solução simples e muito bonita porque toda a canção está ali: dois olhares que não dizem a mesma coisa. Ele carrega ciúme, paixão, talvez esperança. Ela parece distante.
O protagonista permanece paralisado no palco.
Então a câmera encontra Beto novamente, sentado diante da pequena mesa do bar. É ele quem finalmente começa a cantar, olhando diretamente para o espectador.
Ao redor, a vida continua.
Garotas conversam numa mesa. Um casal discute atrás dele. Beto toma um gole de uísque. Parece resignado.
E o clipe vai crescendo junto com a música: o cantor imóvel no palco, o homem sozinho à mesa, a mulher desejada, o rival, os olhares que se encontram e se perdem.
Até que a contenção acaba. A música explode. E Beto finalmente assume o lugar diante da banda que parecia ter abandonado desde o começo do vídeo.
É um clipe pequeno, sem grandiloquência, mas que entendeu perfeitamente a canção que tinha nas mãos. Talvez por isso tenha ficado comigo durante tantos anos. A direção é do cineasta brasiliense Marcelo Barbosa.
Antes de “Meus olhos”, eu já havia sido fisgado por outra balada de Beto, “Isadora”, ainda no repertório de Beto Só e os Solitários Incríveis. As duas acabariam entrando em Lançando sinais.
Mas “Meus olhos” ficou num lugar diferente. Talvez porque algumas canções tenham essa capacidade estranha de atravessar o tempo sem pedir licença. Você as escuta muitos anos depois e não se lembra apenas da melodia.
Lembra de quem você era quando ouviu. Lembra da cidade. Lembra das pessoas. E, às vezes, descobre que certos olhos continuam olhando para você.







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