Quatro garotos, mil ideias, acordes, barulho e um princípio: faça você mesmo. Um país convulsionado depois de 21 anos de ditadura e uma cidade fraturada pelas contradições de um projeto frustrado de civilização. Brasília é palco, retrato e gênese de um dos discos mais importantes do rock nacional: O Concreto Já Rachou, da Plebe Rude

por Olímpio Cruz Neto

Em 1986, quando o rock de Brasília explodiu para o país, não havia quem não se emocionasse com as canções que jorravam das três bandas seminais da cidade. “Tempo Perdido” ganhava as rádios e “Música Urbana” começava a se espalhar e então “Até Quando Esperar” deu um tapa na cara da Nova República. “Com tanta riqueza por aí, onde é que está, cadê sua fração?”

O violoncelo de Jaques Morelenbaum fisgou a molecada. Aquele riff, hoje imediatamente reconhecível, nem sequer existia na abertura quando a canção foi gravada. Morelenbaum havia tocado a frase no meio da música, dobrando uma linha de baixo. Durante a mixagem, Herbert Vianna ouviu o canal isolado e teve a sacada: por que não começar por ali?

Hoje seria um copiar e colar. Na gravação analógica, foi preciso copiar o trecho para outra fita, cortá-la e colá-la fisicamente à master. Um dos começos mais icônicos do rock brasileiro nasceu literalmente de uma emenda. O disco seria lançado em fevereiro de 1986. Mas a canção ganhou as rádios um bom tempo depois.

Outra curiosidade. “Até Quando Esperar” não era a aposta da EMI. A gravadora escolhera “Minha Renda” como música de trabalho. Mas, numa época em que DJs e programadores ainda tinham autonomia, foi essa a canção que começou a tocar espontaneamente e atropelou o planejamento. Philippe Seabra e André Müller ainda moravam em Brasília e tiveram de correr ao Rio para gravar o videoclipe a ser exibido no Fantástico.

A canção abria “O Concreto Já Rachou”, um disco curto — sete músicas, pouco mais de vinte minutos —, mas desproporcionalmente grande naquilo que capturava. Brasília estava inteira: a capital recém-saída da ditadura, os funcionários públicos e seus filhos, a monumentalidade, o tédio, a polícia, a desigualdade e a promessa modernista envelhecendo antes da hora.

Estão lá “Até Quando Esperar”, “Proteção”, “Johnny Vai à Guerra (Outra vez)”, “Minha Renda”, “Sexo & Karatê”, “Seu Jogo” e “Brasília”. Sem exagero, “O Concreto Já Rachou” está para o rock brasileiro como “London Calling” está para o rock inglês. Não porque a Plebe Rude seja o Clash brasileiro. A comparação está na urgência e na capacidade de transformar cidade, crise e juventude em linguagem.

Eu vi a Plebe tocar em 1982, no Festival Interno de Música do Marista, o FIMM, e fui arrebatado. A banda ainda tinha as “plebetes” Ana Galbinsky e Marta Brenner. Era intensa: guitarras fortes, cozinha precisa, as vozes femininas em contraste com o vocal seco de Ameba. Soava original. Havia uma personalidade autoral já muito clara.

Em 1983, a Plebe tocava onde era possível e acumulava repertório. As fitas cassete circulavam de mão em mão. Ainda guardo várias daquele período, entre elas “Sexo & Karatê” e “A Minha Renda”. As demos não eram necessariamente feitas para convencer gravadoras. Eram enviadas às rádios como a Atlântida, em Brasília; a Fluminense, no Rio; e a 89, em São Paulo. Quando a banda desceu para tocar no Circo Voador em 1984, viu gente cantando músicas que nunca haviam saído em disco.

“O Concreto Já Rachou”, portanto, não foi inventado no estúdio. Foi levado para o estúdio. Philippe, André, Jander e Gutje chegaram com as músicas amadurecidas por anos de ensaios e shows. Herbert fez o que um grande produtor faz: reconheceu o que havia ali, retirou excessos, acrescentou ideias e, sobretudo, não tentou transformar a Plebe em outra coisa. Philippe conta que entrou desconfiado, com medo de que a gravadora alterasse letras, harmonias e sonoridade. O produtor e líder dos Paralamas deu a ele uma garantia simples: o disco sairia com a cara da banda. E saiu.

Quatro rudes plebeus. A banda formada em 1981 já era uma das mais influentes da cena brasiliense antes do álbum de estreia (Foto: Acervo Pessoal/Phillipe Seabra)

 Talvez nenhuma música mostre melhor de onde aquelas canções vinham do que “Proteção”. Philippe relembra que a composição nasceu depois de uma viagem de formatura a Cabo Frio, em abril de 1984. Na volta, o ônibus foi parado na entrada do Distrito Federal por forças de segurança. Brasília estava sob as medidas de emergência impostas durante a mobilização pelas Diretas, que seria derrotada pelo Congresso Nacional na noite de 25 de abril.

Eu também estava naquela Brasília. Na Esplanada dos Ministérios, na tarde do dia 24, vi o general Newton Cruz — sem parentesco, claro — lançar a cavalaria e mandar descer a bordoada contra manifestantes que defendiam eleições diretas para presidente. Vi os cavalos avançarem sobre gente que pedia o direito de votar. Uma frustração que deixou a cidade engasgada.

Isso era Brasília. Não uma interpretação feita quarenta anos depois. Era o chão histórico de onde aquela canção saiu: coturnos, cassetetes e cavalos contra civis. “A PM na rua, nosso medo de viver”, cantaria a Plebe. A cidade monumental projetada como símbolo de uma democracia futura transformada em território de controle justamente quando seus habitantes exigiam democracia. 

Por isso Brasília não é só o cenário em “O Concreto Já Rachou”. É a personagem central. E o título do LP contém as várias cidades. O concreto da capital modernista que, pouco mais de vinte anos depois da inauguração, já apresentava rachaduras. O concreto político de um país que saía formalmente da ditadura carregando suas estruturas de autoridade e desigualdade. E o concreto cultural, rachado pelo inconformismo juvenil.

Em entrevista de 1986, a própria Plebe dizia que as bandas de Brasília tinham “rachado” o eixo Rio–São Paulo. A música brasileira ganhava um terceiro vértice. Claro, era uma baita pretensão daqueles jovens roqueiros. Só que estava acontecendo.

“Brasília”, a canção, aliás, quase não entrou no disco. O projeto da EMI previa seis faixas. Philippe insistiu para acrescentá-la porque era justamente dali que vinha o título do álbum. Herbert conseguiu encaixar a sétima. A música que fornecia a chave conceitual do disco fechou o lado B quase por insistência. Mas não por acaso.

É aqui que a comparação com “London Calling” deixa de ser apenas uma provocação. Não há equivalência sonora ou comercial. Há uma função histórica semelhante. Os dois discos nasceram do punk e escaparam dele. O punk lhes deu permissão para existir, mas não determinou até onde poderiam ir. O Clash transformou uma Inglaterra em crise em música capaz de ultrapassar Londres. A Plebe fez algo semelhante com Brasília — e, ao falar obsessivamente da cidade natal, acabou falando do Brasil.

E havia ainda uma diferença importante em relação ao discurso. A Plebe era menos panfletária. Preferia imagem a palavra de ordem. Em “Brasília”, “carros pretos nos colégios” diz mais sobre privilégio do que um refrão contra o poder. Em “Johnny…”, política era o conflito interno de alguém atravessando outra noite.  Em “Minha Renda”, uma banda ainda sem contrato imaginava com ironia o que aconteceria se a indústria tentasse transformá-la em produto — e acabou lançando a música pela gravadora dos Beatles.

Quarenta anos depois, a nova edição do álbum devolve parte desse passado ao disco. O LP reaparece acompanhado de um compacto com demos de “Proteção”, “Johnny Vai à Guerra”, “Sexo & Karatê” e “Minha Renda”. É possível ouvir o objeto acabado ao lado daquilo que ele ainda estava se tornando. Um grande disco não precisa prever o futuro. Precisa registrar seu presente com tanta precisão que, décadas depois, outras gerações ainda consigam reconhecer nele suas próprias fissuras.

O concreto rachou. Mas a obra-prima permanece. Tem história. E tem dimensão histórica. ■

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