A banda Cheyennes, nascida em 1966, era formada por Neusa (guitarra base), Nilsa (guitarra solo), Nair (bateria) e Maria (baixo).

Nos tempos em que o rock era uma coisa basicamente de rapazes, uma banda formada apenas por garotas nos anos 60 mostra que, para além de Rita Lee, houve pioneiras no Planalto Central a empunhar guitarras e baixo, bater nos tambores e cantar alto

Por Fernando Rosa

Num tempo em que os Beatles mal haviam pousado nas rádios brasileiras e o Brasil se debruçava sobre o abismo de 1964, um grupo de garotas em Taguatinga, cidade-satélite ainda empoeirada e em construção, afinava guitarras, microfones e coragem. Eram Neusa (guitarra base), Nilsa (guitarra solo), Nair (bateria) e Maria (baixo).

Nomes simples, de moças do Planalto Central, mas que carregam o peso e a beleza da invenção. Juntas formaram o The Cheyennes, uma das primeiras bandas de rock da região e, até onde se sabe, a primeira composta apenas por mulheres no Distrito Federal.

A história do The Cheyennes permaneceu por muito tempo envolta em silêncio, como se a poeira vermelha do cerrado a tivesse encoberto. Mas em cada bairro de Taguatinga há memórias espalhadas em garagens, clubes e salões de festas onde o som da banda ecoou. 

As garotas animaram bailes e encontros juvenis não apenas em sua cidade natal, mas também em palcos de Minas Gerais e Goiás, compondo um mapa afetivo da juventude do interior brasileiro que resistia à monotonia com ritmo e rebeldia.

O grupo dividia espaço com nomes como Os Infernais, Os Reges, Os Primitivos e Os Geniais, formando o embrião do que viria a ser conhecido como o “rock da Colina” anos depois. Mas enquanto os garotos empunhavam guitarras com a pose de quem imita os Stones, as meninas do The Cheyennes tocavam com a firmeza de quem desbrava território novo. 

Eram moças em meio a um cenário ainda dominado por padrões conservadores e esperanças modernistas. São tão pioneiras quanto Rita Lee Jones, que formou ainda em 1966 Os Mutantes com os irmãos Sérgio Dias e Arnaldo Baptista e se tornou nos anos 70 a “Rainha do Rock Brasileiro”. 

Pioneira: A baixista Maria, da banda Cheyennes, em rara foto do grupo, formado por cinco garotas ainda em 1966 na cidade de Taguatinga. (Foto: Danilo Jairo da Cruz)
Pioneira: A baixista Maria, da banda Cheyennes, em rara foto do grupo, formado por cinco garotas ainda em 1966 na cidade de Taguatinga. (Foto: Danilo Jairo da Cruz)

A memória dessa banda preciosa, nascida em 1966, foi resgatada graças à dedicação do fotógrafo Danilo Jairo da Cruz (falecido em 2020), que registrou e publicou imagens e relatos em seu livro “As Histórias de Taguatinga,
que eu sei contar”. 

Danilo também criou o perfil “Pioneiros de Taguatinga” no Facebook, onde compartilhou o registro histórico do grupo. A fotografia das garotas, com seus instrumentos e expressões sérias, é mais do que um retrato de época: é um manifesto silencioso contra o esquecimento.

O professor e poeta Paulo Kauim, autor do livro “Rolla Pedra: Arte + Utopia – Sob nuvens de chumbo”, sobre o histórico Teatro Rolla Pedra, também teve papel fundamental ao abrir os arquivos e conectar os fios dessa memória. Seu trabalho ajuda a entender que a história cultural de Taguatinga não cabe nos clichês de periferia sem expressão.

Em tempos de redescoberta e valorização da presença feminina na música e nas artes, olhar para trás e encontrar o The Cheyennes é como escavar um diamante bruto. Elas estavam lá, com suas guitarras, baterias e baixos, muito antes que a crítica e a academia reconhecessem a importância de suas existências. É preciso repetir: a história do rock de Brasília não começa com a turma da UnB, mas com essas pioneiras de Taguatinga, que ousaram fazer barulho onde se esperava silêncio.

Que a memória das Cheyennes se amplifique. E que suas notas, ainda que distantes, continuem reverberando em cada esquina onde o rock
encontra a coragem das mulheres. ■

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