Quarenta anos depois do álbum Dois, as canções de Renato Russo ainda guardam a juventude de quem cresceu ouvindo o que parecia simples: temos todo o tempo do mundo

Por Olímpio Cruz Neto

Hoje, quando começa a tocar “Tempo Perdido”, alguma coisa acontece comigo. Os olhos ficam úmidos. Às vezes preciso parar. Não é tristeza. Muito menos saudade de Renato Russo, que eu conheci pouco e de passagem. É saudade de um tempo — e talvez do rapaz que eu era quando ouvi aquela música pela primeira vez.

Comprei Dois assim que o disco saiu. Levei para casa e passei uma tarde inteira ouvindo. Gostei imediatamente. Achei “Andrea Doria” e “Índios” impressionantes. Adorei ainda a pequena peça que é “Central do Brasil”. E ouvi “Tempo Perdido” muitas e muitas vezes naquele ano.

Eu tinha 19 anos. Estava começando a trabalhar. Saía da faculdade e ia namorar dentro da Belina do meu pai. Havia garotas, fitas cassete, discos, amigos, shows e uma cidade inteira toda para nós, moleques. Meu pai estava vivo. Meus filhos ainda não existiam.
Quarenta anos depois, o disco é o mesmo.

Eu é que não sou.

“Tempo Perdido” traz a estranha alquimia das grandes canções. Não envelhecem conosco. Mas guardam quem fomos. Eu sei que essa minha emoção não estava na música quando o disco saiu. Foi o tempo que a colocou ali.

RELÍQUIA. A fita K7 com a trilha sonora de 1983: Clash, Cure, DK, U2, Duran Duran, The Beat, Gang of Four… e Legião, Capital e Plebe.

UM K7

Três anos antes de Dois, Renato Russo chegou até mim dentro de uma fita K7. Foi em 1983.  Eu estava na sala de aula do Objetivo quando Totoni — Antônio Fragoso, que depois faria carreira como ator no teatro e na televisão — me entregou uma K7. Ele sabia que eu gostava de rock. 

Na fita, Clash, Cure, Dead Kennedys, U2, Duran Duran, The Beat, Gang of Four. As canções estavam distribuídas aleatoriamente. E, dentre elas, músicas de três bandas de Brasília. Eu já conhecia a Plebe Rude. Legião Urbana, não.

Da Legião estavam “A Dança”, “Petróleo do Futuro” e “Teorema”. Do Capital Inicial, “Descendo o Rio Nilo”. Da Plebe, “Festas” e “Moda”. Acho que “Teorema” foi a primeira que ouvi. Percebi imediatamente a referência ao filme de Pasolini. Aquilo me fisgou. Havia algo por trás daquelas canções, referências que abriam outras portas e me davam vontade de descobrir de onde vinham.

E havia uma coisa que só agora eu percebo: no K7, as bandas de Brasília estavam juntas com as estrangeiras. Legião, Plebe e Capital dividiam os sessenta minutos da fita magnética com alguns dos grupos que reverenciávamos e estavam reinventando o rock
naquele começo dos anos 80. Para nós, aquilo fazia todo o sentido do mundo.

Quarenta e três anos depois, ainda tenho essa fita. O mundo mudou de suporte, mas este K7 ficou.

A OUTRA FITA

Tenho outra K7 de 1983. Nesta não há Clash, Cure ou Gang of Four. Na etiqueta,  “Legião Urbana”. Dentro dela, uma noite que eu vivi.

AO VIVO. A fita K7 com o show histórico da Legião na ABO. E, do outro lado, trechos do show da Plebe Rude.

Em abril de 1983, fui à Temporada de Rock, no pequeno auditório da Associação Brasileira de Odontologia, na 616 Sul. Fui com um amigo cabeludo, Pepeu. Eu era mais fã da Plebe Rude e me lembro de assistir à Legião meio sem entender o que estava acontecendo.

Dado Villa-Lobos havia entrado na banda poucas semanas antes e fazia ali uma de suas primeiras apresentações com a Legião. Em determinado momento, sua guitarra deu pane. Foi quando percebi uma coisa que a primeira fita não podia mostrar: Renato dominava um palco.

Sem a guitarra da banda, ele não deixou o show morrer. Puxou “Adhan”, um mantra que trazia dos tempos do Aborto Elétrico, e começou a comandar aquela pequena plateia. Renato tinha uma empatia instantânea com o público.

O show foi gravado por Bebébe, um amigo que morreria poucos anos depois. Como naquelas ocasiões, a K7 foi distribuída aos amigos. Uma acabou comigo. Décadas mais tarde, eu a digitalizei e montei um bootleg: ‘Legião Urbana — Ao Vivo na ABO, Abril 1983’. A gravação começou a circular. O show inteiro está no YouTube. Quarenta e três anos depois, dá para voltar àquela noite. Não só pela memória. Dá para ouvi-la aqui.

303 SUL

Bloco A. 16 horas. Setembro de 1983. 

Numa tarde quente de sábado, encontrei Renato Russo pela primeira vez fora dos palcos. Eu acompanhava João Barone e Bi Ribeiro, dos Paralamas do Sucesso, que estavam em Brasília para o primeiro show da banda na cidade, no Rockway 2. Fui levado por Pedro Ribeiro, irmão de Bi, a namorada dele, Fê Lemos e Inês. Herbert ficara para fazer a passagem de som.

A visita era uma surpresa para o vocalista da Legião. Renato nos recebeu com cortesia e levou todo mundo para o quarto. Falava muito. Era articulado, curioso. Eu tinha 16 anos e fiquei impressionado. Primeiro, com a coleção de discos. Imediatamente, percebi algo estranho. Entre os LPs encostados nas paredes, havia alguns que não existiam.

Explico. Renato imaginava álbuns e compactos. Do Aborto Elétrico, da Legião… Criava projetos gráficos. Como o do “compacto” do Aborto, com “Hey! Menina” e “Love Song One”.

Eu nunca tinha conhecido alguém assim, com tanta imaginação. A Legião não havia gravado um acetato, mas Renato parecia enxergar a obra inteira a construir. Nós víamos apenas uma banda.

Bi contou sobre as gravações de Cinema Mudo. Os Paralamas haviam gravado duas canções dele – “O que eu não disse” e… “Química”. Renato queria saber tudo. Principalmente do processo de gravação. Bi falava. E Renato ouvia, repetindo, entusiasmado:

— Muito bom… Muito bom…

Saímos de lá para o show. Mas, depois daquela visita, passei a prestar ainda mais atenção à Legião. O futuro ainda não tinha acontecido. Só que Renato parecia já ter começado a desenhá-lo.

RELEASE. Material de divulgação preparado em 1983 por Renato para ser distribuído à imprensa, inclusive para os primeiros shows em São Paulo e no Rio, feitos naquele ano. (Arquivo Dinho Kamers)

ANTES DE RUSSO

Em 11 de janeiro de 1978, Renato Manfredini Júnior apareceu pela primeira vez nas páginas do Correio Braziliense. Tinha 17 anos e prestava vestibular para Comunicação na Universidade de Brasília.

Ainda não havia o Aborto Elétrico. Muito menos a Legião Urbana. Que dirá o artista Renato Russo. Ao jornal, o jovem vestibulando falou das provas, de português – da questão sobre José de Alencar – e de inglês. Parecia apenas mais um garoto de Brasília tentando decidir o que faria da vida.

Um ano depois, estava escrevendo uma carta que acabou sendo publicada pela revista Melody Maker.

BRASÍLIA, 1979

Renato Russo tinha 18 anos quando escreveu à revista inglesa Melody Maker sobre a morte de Sid Vicious. Assinou como Eric Russel.

A carta dizia muito mais do que o luto por um ídolo. Dizia como aquele garoto enxergava a cultura — e o lugar de Brasília dentro dela.

Sid, Clash, Beatles, Stones, Jefferson Airplane, Brian Jones, Jim Morrison, Gram Parsons. Renato absorvia referências, aproximava épocas, estabelecia relações. Música, para ele, não era apenas algo que se ouvia. Era uma maneira de compreender o mundo.

E havia uma queixa dele na carta que fala muito sobre como vi Brasília naquela época: “Nada acontece aqui, nunca.”

Quatro anos depois, ele estaria ajudando a provar exatamente o contrário.

NO TEMPLO

No dia 15 de dezembro de 1986, assisti a um show da Legião Urbana, junto com meu irmão. A banda já não era aquela que eu tinha visto diante de algumas dezenas de pessoas na ABO.

Depois daquele show, eu ainda os vi nos auditórios das escolas, como na Escola Parque e o Colégio Alvorada, e no circuito das satélites – Rolla Pedra e Cave. Tocavam onde fosse possível. 

Agora, ocupavam o palco mais sagrado da cultura na capital: a Sala Villa-Lobos, do Teatro Nacional.

O disco Dois havia sido lançado em julho e transformara a Legião num fenômeno nacional em apenas seis meses, com direito a participação no programa Chico & Caetano, na TV Globo, e sendo elogiado por Caetano Veloso.

Aquilo tinha um significado especial para quem acompanhara algumas das bandas da cidade desde o começo dos anos 80. A Villa-Lobos era o palco dos grandes espetáculos, das orquestras sinfônicas, dos medalhões da MPB, das noites solenes do Teatro Nacional.

A Legião ocupara aquele lugar.

E eu percebi que alguma coisa extraordinária havia acontecido diante dos olhos da nossa turma de amigos. Brasília já não precisava pedir licença para ocupar o palco. E não era apenas o tamanho da plateia que havia mudado.

Mesmo antes, Renato já perseguia algumas das ideias que desembocariam em “Tempo Perdido”. Em “1977”, uma composição dos tempos do Aborto Elétrico, o rapaz acordava pensando no dia que passara, dizia ainda ter muito tempo e tentava vencer a própria indecisão. Era uma canção rápida, nervosa, quase uma descarga de ansiedade juvenil.

A inquietação já estava lá.

Mas a poesia ainda estava chegando.

Em “Tempo Perdido”, a canção que estava estourada em todo o país, Renato fez algo mais difícil. Em vez de explicar a angústia, encontrou imagens para ela. Tirou palavras, abriu espaços, deixou contradições respirarem. 

O tempo deixou de ser apenas o problema de um rapaz tentando decidir o que fazer da vida e virou uma experiência que qualquer pessoa poderia reconhecer como sua.

Talvez por isso eu pudesse ouvir aquela música em 1986 emocionado, mas não embargado. Eu tinha 20 anos. E ainda acreditava, como a canção dizia, que tínhamos todo o tempo do mundo.

11 DE OUTUBRO DE 1996

Dez anos depois daquela noite na Sala Villa-Lobos, Renato Russo morreu. Tinha 36 anos. A causa foi uma doença que carregava então não apenas a ameaça da morte, mas uma carga brutal de preconceito: a aids. Seis anos antes, ela havia levado Cazuza, aos 32. A epidemia atingiu uma geração inteira enquanto o medo, a desinformação e o estigma transformavam muitas vezes a própria doença numa espécie de condenação moral.

Renato preservou sua intimidade até o fim. E não trato disso aqui. O que me impressiona é outra coisa: a estupidez da perda.

Um poeta morreu aos 36 anos.

E há algo nessa conta que dá para perceber agora. Renato viveu apenas dez anos depois de Dois. Nós já vivemos outros trinta sem ele. 

Tinha apenas seis anos a mais do que eu. Hoje, aos 59, os 36 anos que ele tinha me parecem uma idade obscenamente pequena para morrer.

Ele não viu a internet transformar a maneira como ouvimos música. Não viu suas canções atravessarem o fim do disco, o CD, o MP3 e chegarem ao streaming. Não viu garotos que nem eram nascidos quando ele morreu cantarem “Tempo Perdido”. Não viu Brasília mudar, o Teatro Nacional fechar e reabrir, nem a cidade transformar em patrimônio uma geração que começou tocando onde encontrasse uma tomada e algum espaço.

Não viu seus contemporâneos envelhecerem. Não viu seus ouvintes terem filhos. Não viu os nossos filhos descobrirem suas canções. Renato não envelheceu com a obra que deixou.

Nós envelhecemos. ■

2 respostas a “O tempo que ficou”

  1. […] também: O tempo que ficou — a história de como esta fita chegou até mim e o que havia dentro […]

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  2. […] material faz parte da história contada em “O tempo que ficou”, na revista CENAS […]

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