Novo tributo reúne mais de 60 artistas em 56 gravações da obra solo do ex-Mutantes. A sucessão de releituras atravessa gerações — e tem um capítulo especial em Brasília, onde bandas da cidade mergulharam em seu repertório nos anos 1990

Por Olímpio Cruz Neto

A obra de um dos músicos brasileiros mais influentes do país está sendo reapresentada a novas gerações. Enquanto mais de 60 artistas se voltam à obra de Arnaldo Baptista em um novo e monumental tributo, o passado resolveu aparecer também.

Um registro de Arnaldo Baptista com a Patrulha do Espaço, ao vivo em 1978, chegou agora ao YouTube. Quase meio século separa essa gravação da apresentação dele e banda no Teatro São Pedro – realizada em 14 de maio de 1978 – das 56 releituras reunidas agora em Arnaldo Baptista 7.8 — Canções inesquecíveis revisitadas.

Entre uma ponta e outra há uma história curiosa. Poucos artistas brasileiros tiveram sua obra tantas vezes retomada, redescoberta e reinterpretada por músicos de gerações diferentes. Há quase 40 anos Arnaldo Baptista vem sendo revisitado. 

E Brasília ocupa um capítulo especial dessa história.

SANGUINHO NOVO

Em 1989, Sanguinho Novo… Arnaldo Baptista Revisitado reuniu uma geração que já enxergava Arnaldo não apenas como ex-integrante dos Mutantes, mas como referência para o rock alternativo brasileiro que emergira nos anos 1980.

Era um elenco improvável e revelador da extensão de sua influência: Paulo Miklos, Ratos de Porão, Fellini, Sexo Explícito, Skowa e até o Sepultura estavam entre os artistas que mergulharam naquele repertório. O título era perfeito. Sangue novo para músicas inquietas.

Poucos anos depois, seria a vez de Brasília.

ONDE É QUE ESTÁ MEU ROCK’N’ROLL?

Gravado em 1995 e 1996 e lançado no final daquela década, Onde é que está o meu rock’n’roll? — Arnaldo Baptista novamente revisitado reuniu bandas e músicos brasilienses em torno da obra do fundador dos Mutantes.

Produzido por Mário Pazcheco, autor da primeira biografia do músico, ‘Balada do Louco’, o projeto tinha uma característica particularmente importante: além de releituras de músicas conhecidas, recuperava cinco composições então inéditas — “Tacape”, “Dança de Um Outro Tempo”, “Ah! Garupa”, “Senhor Empresário” e “Imagino”.

O elenco funciona hoje quase como uma fotografia de uma determinada Brasília musical.

Estão no disco nada menos que Little Quail and The Mad Birds, Low Dream, Pravda, El Kabong, Nata Violeta, Athena, Bootnafat, Ligação Direta, Mata Hari, Marssal, Pinturas da Alma e outros grupos. Também comparecem músicos como Célia Porto, Rênio Quintas e Bruno Wambier.

Na época, a RockBrasilia.com (site que eu editava) trouxe uma crítica do CD. Algumas escolhas funcionavam melhor que outras — tributos também envelhecem de maneira desigual —, mas havia ali momentos extraordinários.

O Little Quail and The Mad Birds, de Gabriel Thomaz e Bacalhau, transformava “Senhor Empresário” num rock’n’roll endiabrado, com uma pegada surf, e fazia daquela, para mim, a melhor faixa do disco.

O Low Dream recuperava o desespero de “Jesus Come Back To Earth”, de ‘Singin’ Alone’. E El Kabong dava peso a “The Cowboy”. Também Sylvio J, do Pravda, reconstruía “Imagino” numa versão fria e atmosférica, com algo de Portishead.

Havia ainda uma pequena preciosidade: Rênio Quintas ao piano acompanhando Célia Porto em “Ah! Garupa”. E Bruno Wambier encerrava o disco com “Dança de Um Outro Tempo”, peça que Arnaldo havia composto aos sete anos e cuja partitura fora transcrita por sua mãe, a pianista clássica Clarisse Leite Dias Baptista.

Brasília não estava simplesmente homenageando um ídolo. Estava mexendo em sua obra.

ARNALDO 7.8

Agora, quase três décadas depois daquele projeto brasiliense, a roda gira novamente. Arnaldo completou 78 anos em 6 de julho. Dois meses depois chegaram às plataformas digitais os quatro volumes de Arnaldo Baptista 7.8 — Canções inesquecíveis revisitadas.

São 56 gravações inéditas feitas por mais de 60 artistas. Os quatro álbuns — Cobre, Sunny, Pink e Jeans — concentram-se deliberadamente na carreira solo de Arnaldo, deixando de lado, em grande medida, o repertório que ele compôs ou gravou com Os Mutantes entre 1966 e 1973.

O caminho passa, portanto, por clássicos como Lóki? (1974) e Singin’ Alone (1981), além de Disco Voador (1987) e Let It Bed (2004). A obra de Arnaldo é das mais sólidas do rock brasileiro e houve quem, como Rogério Duprat, o coloque na mesma prateleira que ninguém menos do que John Lennon.

Numa histórica entrevista a Fernando Rosa e Alexandre Mathias na extinta revista Bizz, em 2000, o maestro do tropicalismo não poupou elogios sobre o papel dele nos Mutantes e para além:

“O grande músico, inventor mesmo, criador era o Arnaldo, sem dúvida. (…) Arnaldo era mais universalista, um cara mais John Lennon…”

ROGÉRIO DUPRAT

A entrevista pode ser ouvida aqui.

Como veem, a escala é outra.

Voltando ao tributo de 2026, há uma miscelânea de músicos e grupos nesta grande compilação/tributo: Boogarins, Edgard Scandurra, Helio Flanders, Hyldon, Kiko Zambianchi, Leo Jaime, Sandra Sá, Zé Ramalho, Zeca Baleiro, Violeta de Outono, Thunderbird, John Ulhoa, Cachorro Grande, Defalla e Selvagens à Procura de Lei aparecem ao lado de dezenas de artistas de gerações mais recentes.

E basta percorrer as faixas para reencontrar velhas conhecidas do projeto brasiliense. “Imagino” está novamente lá. “Ai Garupa” recebeu mais de uma interpretação. “Cowboy” reaparece. “Ciborg”, “Tacape”, “Corta Jaca”, “Não Estou Nem Aí”, “Navegar de Novo” e outras músicas atravessam mais uma geração de músicos.

É quase como observar as canções mudando de mãos.

Sandra Sá, que interpreta “Cê tá pensando que eu sou Lóki?”, falou justamente sobre isso em entrevista publicada no Tempo, de Minas Gerais. Para ela, o tributo mostra o encontro de gerações: gente nova ouvindo, descobrindo e gravando a música de Arnaldo.

Talvez seja essa a chave.

A PROCURA CONTINUA

Arnaldo Baptista nunca pareceu caber confortavelmente no passado. Os Mutantes são parte incontornável de sua história, mas a sucessão de tributos mostra outra coisa: existe uma obra para além da banda, estranha, delicada, engraçada, melancólica, feroz e profundamente pessoal, à qual músicos continuam retornando.

Em 1989, uma geração colocou Sanguinho Novo nessas canções. Nos anos 1990, Brasília perguntou: Onde é que está o meu rock’n’roll? Em 2026, mais de 60 artistas respondem à sua maneira.

E, justamente quando esse novo tributo chega às plataformas, aparece na internet aquele Arnaldo de 1978, tocando com a Patrulha do Espaço. O homem antes dos tributos.

Na crítica que escrevi sobre o disco brasiliense, registrei uma definição dada pelo próprio Arnaldo àquelas versões. Ele recorrera a uma velha expressão para música forte: “Lenha.”

Quase três décadas depois daquela homenagem de Brasília — e quase quatro décadas depois de Sanguinho Novo —, parece uma definição ainda bastante útil.

A lenha continua ardendo.

ESCUTE

1978 — Arnaldo Baptista e Patrulha do Espaço, ao vivo. Registro histórico disponibilizado no YouTube em setembro de 2026.

1989 — Sanguinho Novo… Arnaldo Baptista Revisitado. Um dos primeiros grandes tributos de uma nova geração à obra de Arnaldo. Ouça no YouTube.

1999 — Onde é que está o meu rock’n’roll? — Arnaldo Baptista novamente revisitado. A homenagem produzida com músicos e bandas de Brasília.

2026 — Arnaldo Baptista 7.8 — Canções inesquecíveis revisitadas.
Quatro volumes, 56 gravações e mais de 60 artistas.

Uma resposta a “Arnaldo. Eternamente revisitado”

  1. Avatar de
    Anônimo

    maravilhosa matéria.

    gratidão

    Curtir

Deixe um comentário

CENAS Brasília

Histórias, cultura e memória de Brasília. Entre música, imagens e palavras, um olhar sobre a capital e as pessoas que fazem suas cenas.