Em 1986, na ressaca do Plano Cruzado e da vitória esmagadora do PMDB, uma manifestação contra o governo Sarney terminou em repressão, carros incendiados e uma pergunta que permanece sem resposta até os dias de hoje: quem transformou o centro de Brasília em praça de guerra?
Por Olimpio Cruz Neto
Em 27 de novembro de 1986, uma manifestação contra o pacote econômico do governo Sarney terminou com carros incendiados, repressão policial e o centro da capital transformado em praça de guerra. Nos bastidores, documentos e testemunhos alimentariam uma suspeita perturbadora: provocadores ligados aos aparelhos de segurança do Estado teriam ajudado a transformar o protesto em baderna.
Às 18h45 de 27 de novembro de 1986, cerca de vinte pessoas interceptaram um micro-ônibus do Exército na entrada do Touring Clube do Brasil, ao lado da Rodoviária do Plano Piloto. O veículo foi depredado e incendiado. Pouco depois, outros carros começaram a arder. Viaturas policiais, ônibus e veículos públicos foram destruídos. No Setor Comercial Sul, vitrines eram quebradas. A polícia avançava sobre os manifestantes. Jornalistas tentavam registrar o tumulto — alguns tiveram suas câmeras tomadas ou destruídas.
Brasília virou palco de uma batalha campal.





Horas antes, cerca de 10 mil trabalhadores, estudantes e militantes haviam ocupado o centro da capital para protestar contra o Cruzado 2, pacote econômico anunciado pelo presidente José Sarney poucos dias depois de o PMDB obter uma vitória esmagadora nas eleições. A manifestação começara como um dos maiores atos políticos realizados na cidade desde o fim da ditadura. Terminaria incorporada à história de Brasília por outro nome: Badernaço.
A coincidência era quase perfeita demais para ter sido inventada. Naquele mesmo 1986, quatro rapazes da cidade haviam lançado “O Concreto Já Rachou”. A Plebe Rude cantava uma Brasília monumental e autoritária, habitada por jovens espremidos entre o tédio, a polícia, o poder e as promessas de uma capital que envelhecera precocemente. Meses depois, a rachadura estava nas ruas. >>>
DEMOCRACIA VIGIADA
Brasília vivia um momento peculiar. A capital acabara de conquistar representação política própria e elegera pela primeira vez três senadores e oito deputados federais. Sindicatos, estudantes e partidos ocupavam espaços antes interditados pela ditadura. CUT e CGT organizavam trabalhadores. PT, PCB, PCdoB, MR8 e PDT participavam abertamente das mobilizações. Na Universidade de Brasília, o movimento estudantil voltava a ocupar as ruas.
Mas a Nova República carregava dentro dela parte da máquina do regime que deveria ter deixado para trás. O Serviço Nacional de Informações continuava funcionando. Dias antes da manifestação, a Plenária Intersindical reunira mais de uma centena de sindicalistas, estudantes, militantes e políticos no Sindicato dos Bancários. Entre eles estavam parlamentares recém-eleitos. Enquanto os participantes discutiam como reagir ao Cruzado 2, agentes da comunidade de informações acompanhavam a movimentação e registravam nomes.

O estopim havia sido aceso pelo próprio governo. Depois de meses sustentando artificialmente o Plano Cruzado e vendo o PMDB vencer as eleições em praticamente todo o país, Sarney anunciou um novo pacote. Vieram aumentos de tarifas públicas e impostos e mudanças no cálculo da inflação. Para boa parte da oposição, o Cruzado 2 pareceu confirmar um enorme estelionato eleitoral. A resposta foi para a rua.
DA ESPLANADA AO FOGO
A concentração começou na Rodoviária. Por volta das 13h, segundo um informe produzido pela Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal e incorporado aos arquivos do SNI, aproximadamente 6 mil pessoas já estavam no local. Outro grupo, vindo pelo Eixo Rodoviário Sul, elevou a multidão para perto de 10 mil. A polícia tentou impedir a passagem para a Esplanada. Não conseguiu.
Os manifestantes avançaram até o Congresso Nacional. Houve confrontos nas proximidades da Praça dos Três Poderes. Às 15h20, dirigentes sindicais discursavam de duas kombis equipadas com alto-falantes. Às 16h30, a passeata seguiu para o Ministério da Fazenda, principal alvo dos protestos. Uma comissão tentou ser recebida pelo ministro Dilson Funaro. Não foi. Às 17h15, a Polícia Militar dispersou a concentração.
A partir daí, a história muda de natureza. Às 18h45, o micro-ônibus do Exército foi incendiado perto da Rodoviária. Um grupo maior começou a destruir veículos públicos. Pelo menos 26 viaturas da Polícia Civil foram queimadas, além de veículos do Governo do Distrito Federal, ônibus e outros bens públicos. Houve depredações no centro comercial e saque a um supermercado. Às 19h45, a PM ocupou a Rodoviária. Às 20h15, novos atos de vandalismo eram registrados no Setor Comercial Sul.
A manifestação política havia desaparecido sob as imagens do fogo que lambiam ônibus e os carros da polícia.
QUEM QUEBROU BRASÍLIA?
Uma pergunta começaria a perseguir aquele 27 de novembro: quem eram os homens que comandaram parte da destruição? Testemunhas chamaram atenção para grupos que não reconheciam entre os militantes habituais de Brasília. Antenor Gentil Júnior, veterano dirigente sindical e agitador cultural, descreveu posteriormente à comissão criada pelo governo do Distrito Federal jovens de menos de 30 anos, atléticos, bem vestidos e com cabelos cuidadosamente cortados. Segundo ele, provocavam confrontos perto dos policiais sem serem molestados.
Outra circunstância despertou suspeitas. Viaturas policiais haviam sido deixadas agrupadas e aparentemente sem vigilância nas proximidades da Rodoviária. Quando começaram a arder, jornalistas que tentavam fotografar a violência foram agredidos e tiveram equipamentos tomados ou destruídos.

O jornalista Fernando Lemos, então editor executivo do Correio Braziliense, relataria ter ouvido de um contraventor do jogo do bicho que agentes ligados à P2 estavam por trás das depredações. Outras versões apontariam integrantes da chamada comunidade de informações.
Nada disso, porém, chegou a ser conclusivamente provado.
A comissão de sindicância criada pelo governador José Aparecido registrou as denúncias e as circunstâncias estranhas, mas não conseguiu determinar quem comandara os incêndios e depredações. A hipótese de agentes provocadores permaneceu como uma sombra sobre o Badernaço — sustentada por testemunhos e indícios, mas jamais transformada em conclusão oficial.
OS FICHADOS
O aparelho de inteligência, entretanto, sabia exatamente quem queria observar. Em fevereiro de 1987, uma apreciação confidencial da Agência Central do SNI relacionou 166 pessoas associadas às mobilizações de Brasília: dirigentes sindicais, estudantes, militantes, professores, políticos e parlamentares.
Ao lado dos nomes, os agentes anotavam partidos, organizações e supostas ligações políticas. Entre eles estava eu, um estudante de jornalismo de 20 anos, registrado como Olímpio Cruz. Na mesma lista aparecia Raimundo Nonato Cruz, meu pai. Duas gerações da mesma família catalogadas pela máquina de informações de um regime que oficialmente já havia terminado.
O Badernaço ocorreu menos de dois anos depois do fim da ditadura. Brasília tinha apenas 26 anos de vida. A cidade projetada para materializar uma ideia de futuro descobria que a democracia também chegara carregando estruturas, personagens e métodos do passado. Naquela noite de novembro, o fogo iluminou o concreto de uma capital construída para representar a ordem. Meses antes, a Plebe Rude havia dado a seu primeiro disco um título que parecia uma provocação. Depois daquela quinta-feira, parecia uma descrição: o concreto já tinha rachado. ■
LEIA TAMBÉM
Deu no New York Times
PARA SABER MAIS
Reportagem de Olimpio Cruz Neto, publicada na Focus Brasil nº38, de 27 de novembro de 2021, editada pela Fundação Perseu Abramo.








Deixe um comentário