Dois dias depois dos confrontos, o jornal americano levou a crise brasileira à primeira página. Para o correspondente, as imagens de policiais atacando manifestantes, carros incendiados e saques mostravam o momento mais difícil de José Sarney desde que assumira a Presidência.
Em 29 de novembro de 1986, o diário New York Times apresentou a seus leitores uma Nova República subitamente em crise. Apenas duas semanas depois de o PMDB conquistar uma vitória esmagadora nas eleições, o presidente José Sarney tornara-se alvo de uma forte onda de críticas provocada pelo pacote econômico anunciado seis dias depois da votação.
O principal jornal americano descreveu os confrontos ocorridos em Brasília como os primeiros protestos violentos contra o governo desde o fim da ditadura militar. Policiais fortemente armados haviam enfrentado milhares de trabalhadores e estudantes na Esplanada, usando cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo.
Mas eram sobretudo as imagens que pareciam ter atravessado as fronteiras. Fotografias e cenas de televisão mostrando policiais atacando manifestantes, carros da polícia em chamas e saques, escreveu o jornal, haviam abalado um país ainda pouco acostumado à violência política da recém-inaugurada democracia.
Na imprensa internacional, o Badernaço deixava de ser apenas uma crise de Brasília.
Tornava-se uma crise da Nova República. >>>
O GOVERNO GANHOU A BATALHA?
A repercussão internacional não se limitava às cenas de violência. O New York Times percebeu imediatamente o tamanho da rachadura política aberta pelo Cruzado 2.

O ministro da Fazenda, Dilson Funaro, havia oferecido sua demissão — recusada por Sarney. Integrantes do próprio PMDB criticavam as medidas. CUT e CGT discutiam uma greve geral. E comentaristas citados pelo jornal consideravam aquele o momento mais difícil do presidente desde sua posse, em março de 1985.
Sarney foi ao rádio defender o pacote e afirmar que o governo respeitava as manifestações de divergência, embora não tolerasse abusos. O problema era que as imagens de Brasília já haviam adquirido vida própria.
O Times registrou até uma manchete publicada por O Estado de S. Paulo depois dos confrontos: “The Government Wins the Battle of Brasilia” (Traduzindo: “O governo vence a batalha de Brasília.”)
E o restante da reportagem mostra algo ainda mais interessante: eleitores telefonavam à Justiça Eleitoral perguntando se poderiam mudar o voto; adesivos começavam a aparecer nos carros dizendo que o proprietário não havia votado no PMDB; e o desgaste ressuscitava politicamente o já ex-governador do Rio de Janeiro, inimigo público nº 1 dos generais desde antes do Golpe Militar: Leonel Brizola. Duas semanas antes, o velho herdeiro do trabalhismo de Getúlio Vargas parecia ter saído derrotado das urnas.
Em apenas quatorze dias, o PMDB passara da maior vitória eleitoral de sua história para uma crise que ocupava a capa do mais influente jornal do Ocidente.
Brasília havia rachado — e o mundo percebera. ■








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