A história do álbum que mostrou ao país a nova leva de bandas de Brasília num disco gravado ao vivo no Circus Show, ao lado da Catedral, semanas depois do Badernaço. Um disco que mostrou a cena candanga como o berço da ‘capital do rock brasileiro’

‘‘O rock brasiliense está em alta”.

Era 8 de dezembro de 1986. Na capa do Correio Braziliense, uma pequena chamada anunciava o resultado de três noites de música. O Festival Rock Brasília terminara na véspera com dez bandas selecionadas e uma promessa: em poucos meses, elas chegariam juntas ao mercado nacional num LP da WEA.

Brasília vivia uma contradição curiosa. Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial já haviam transformado a cidade em uma das capitais do novo rock brasileiro. Mas, enquanto o país aprendia a associar Brasília a meia dúzia de nomes, dezenas de outras bandas ensaiavam, faziam shows e circulavam fitas pela cidade. Em um determinado momento, a cidade já tinha mais de uma centena de grupos de rock.

Jurado do festival, o produtor Pena Schmidt não vendia ilusões. Ele era parceiro do lendário produtor Liminha, que já carregava Selvagem?!, dos Paralamas no currículo e trazia a aura de midas e lenda do rock nacional como baixista dos Mutantes. Pena via os grupos brasilienses ainda em estágio inicial, que precisavam ser “burilados”. Mas reconhecia no que ouvira durante o festival “um retrato fiel do atual estágio do rock de Brasília”.

O retrato seria prensado em vinil. 

Chamava-se Rock Brasília Explode Brasil.

O disco nasceu no palco. Durante três noites de dezembro de 1986, dez bandas escolhidas pelo Festival Rock Brasília foram registradas ao vivo no Circus Show. Uma unidade móvel chamada Nas Neblinas captou as apresentações. Ricardo Garcia comandou a gravação, Arthur Bello foi o assistente e a direção artística ficou a cargo de Liminha.

Depois, as fitas seguiram para São Paulo, onde foram mixadas nos estúdios RAC-S. A produção do festival e a capa ficaram com a Artway. A ficha técnica fazia questão de registrar uma característica que, quatro décadas depois, ajuda a entender tanto as virtudes quanto as limitações do LP: GRAVADO AO VIVO. E SEM RETOQUES.

Não eram dez bandas entrando separadamente num estúdio para fabricar seus melhores singles. O que ficou no vinil foi um flagrante: grupos em diferentes estágios de maturidade, submetidos às mesmas condições de palco, tentando mostrar em poucos minutos quem eram. A irregularidade faz parte do documento. 

O álbum seria lançado em fevereiro de 1987.

A TERCEIRA GERAÇÃO

Quatro meses depois, o Correio Braziliense encontrou a expressão acima para aqueles músicos. A genealogia fazia sentido naquele instante. Antes, grupos como a Tellah, Mel da Terra, Pôr do Sol e Liga Tripa haviam ajudado a abrir espaços para o rock produzido na cidade. 

Depois, Legião, Plebe e Capital romperam as fronteiras do DF e chegaram ao mercado nacional. Mas a história era menos linear do que a expressão sugeria. A cena brasiliense acumulava camadas desde os anos 60 e 70 — e vários daqueles músicos carregavam experiências anteriores.

Daí que, naquele ano de 1986, havia muitas bandas. O disco era só uma prévia do que rolava na capital. Ali estavam W-3, Pânico, Marciano Sodomita, Habeas Corpus, 5 Generais, Beta Pictoris, Elite Sofisticada, Manto, Os Culpados e Artigo 153.

Não formavam um movimento esteticamente uniforme. Havia pós-punk, pop, hard rock, experimentação e músicos vindos de outras gerações da cidade. Talvez seja justamente
por isso que Rock Brasília Explode Brasil permaneça interessante. Registra que o rock de Brasília era muito maior que a cena que chegou ao resto do país.

Beta Pictoris era uma boa demonstração de que aquela geração não começara em 1986. Formada em 1985, a banda reunia Tadeu, Cláudio Felício, Edson Souza, Pedro Jorge e Filipe Guedes. 

E alguns deles carregavam consigo capítulos anteriores da cena brasiliense. Cláudio havia tocado no Tellah, uma das bandas seminais do rock da cidade nos anos 70. Tadeu vinha do Nirvana, outra clássica formação brasiliense, famosa antes mesmo do nascimento do grupo de Kurt Cobain, em Seattle, nos Estados Unidos.

A imprensa da época encontrava na Beta influências que iam de progressivo e hard rock ao jazz fusion e à MPB. No LP, a banda entrou com “Volta Pra Mim”, baladona na voz marcante de Tadeu, que também era compositor.

A música nem precisou esperar o disco. Dias antes do lançamento oficial, o Correio registrava que a demo já circulava pela programação da Atlântida FM. Era assim que a cena funcionava: músicas viajavam em fitas, shows e mãos de amigos antes que a indústria as alcançasse.

Daí que podemos dizer que ali não era uma ‘terceira geração’. Era gente demais para essa classificação por demais redutora.

DA PLEBE À ELITE

A cena era deliciosamente autorreferente. Pois, para além da Plebe Rude havia a Elite Sofisticada. No LP, surgem com  “Tudo Mal”, uma das canções que melhor resistem à passagem do tempo. O nome parecia uma provocação perfeita para uma cidade que acabara de apresentar sua Plebe ao país. Mas a Elite tinha história e personalidade próprias.

E trazia dentro dela uma pequena genealogia do rock brasiliense. O baterista Rogério Lopes é irmão de Loro Jones, então no Capital Inicial, e de Geruza, da Escola de Escândalo. Três irmãos, três bandas diferentes da mesma cena. E a canção era de autoria de Loro e Rogério, e por isso foi parar naquele mesmo ano no disco do Capital.

Já o Manto entrou no LP com “Velhas Caras” e revelava outro cruzamento. Na cobertura do festival, o Correio foi econômico ao descrevê-lo: “Manto: instrumental forte”. Os músicos Paulo Torres e Marco Guedes já haviam integrado, respectivamente, o Mel da Terra e o Pôr do Sol, duas outras bandas fundamentais da cena brasiliense dos anos 80.

A coletânea começava a parecer menos um catálogo de novidades do que um mapa de conexões. Músicos mudavam de grupos, irmãos formavam bandas diferentes, experiências anteriores reapareciam sob outros nomes.

A chamada “terceira geração” talvez não tratasse  realmente de uma geração. Era da cena.

DO PÂNICO AO ESTÚDIO

Entre as dez bandas da coletânea da Warner ainda estava o Pânico, um dos grupos elogiados pelo júri durante o festival. Dois de seus integrantes ajudam a desmontar qualquer ideia de que aquela fosse simplesmente uma geração nova entrando em cena.

O vocalista Rodrigo Leitão, jornalista, vinha do Finis Africae, banda da qual era um dos fundadores e que já havia estreado em disco. Em 1985, o Finis participou de Rumores, coletânea lançada de maneira independente pelo Sebo do Disco e um dos registros fundamentais daquela Brasília subterrânea que crescia à margem das grandes gravadoras.

Nos teclados do Pânico estava Álvaro Alencar. Para ele, a banda seria também uma escola. O músico atravessaria o palco para construir uma longa carreira do outro lado do vidro, tornando-se engenheiro de som e produtor musical e trabalhando, entre outros, ao lado do sócio Tom Capone.

Quarenta anos depois daquele festival, um desses fios voltaria ao ponto de partida. Álvaro conduziu em 2026 a regravação de “Até Quando Esperar”. No estúdio, junto com a Plebe, Herbert Vianna e Jaques Morelenbaum, personagens da gravação original de O Concreto Já Rachou.

O tecladista reencontrava a onda da banda que, em 1986, parecia pertencer à geração anterior.  Talvez aí esteja a falha — e a beleza — de tentar organizar o rock de Brasília em gerações. As bandas mudavam. Os músicos circulavam. Mas a cena permanecia.

O QUE SOBROU DA EXPLOSÃO

Ouvir Rock Brasília… quase quarenta anos depois não exige transformá-lo numa obra-prima perdida. É um pau de sebo. Algumas músicas ficaram presas ao tempo. Outras revelam bandas que ainda procuravam uma identidade. O próprio Pena Schmidt já percebera isso em 1986 ao falar de grupos que precisavam ser burilados.

Mas há momentos que continuam funcionando muito bem. “A Carta”, da banda W-3, é um deles. “Volta Pra Mim”, da Beta Pictoris, outro. E ainda tem “Pássaros Negros”, dos 5 Generais, que preserva algo particularmente forte daquela Brasília sombria da segunda metade da década.

Nas fotos, os 5 Generais parecem pertencer exatamente ao universo que sua música sugere: roupas escuras, palco nu… Austeridade distante da euforia do pop colorido nacional.

E havia ainda a W3, outra banda com veteranos da cena roqueira. O guitarrista Luiz Carlos ‘Dentinho’ vinha do Pôr do Sol. 

Dá para ver que os músicos transitavam. Não era uma Brasília tentando repetir as três bandas que deixaram a capital e estavam fazendo sucesso. Eram estrelas de outra constelação da cidade que tentavam brilhar. ■


O DISCO

ROCK BRASILIA EXPLODE BRASIL

LADO A

  1. A Carta — W-3
  2. Máscaras — Pânico
  3. História — Marciano Sodomita
  4. E O Tempo — Habeas Corpus
  5. Pássaros Negros — 5 Generais

LADO B

  1. Volta Pra Mim — Beta Pictoris
  2. Tudo Mal — Elite Sofisticada
  3. Velhas Caras — Manto
  4. Razões — Os Culpados
  5. Seja Normal — Artigo 153

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CENAS Brasília

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