A SQN 312 se tornou no final dos anos 60 uma pequena Liverpool, onde jovens músicos e poetas tentavam encontrar a si mesmos em meio a uma cidade ainda inóspita, marcada pela terra vermelha e, depois, pelos coturnos de uma ditadura

Por José Romildo

Em meados dos anos 60, quando Brasília ainda era mais promessa do que cidade, a SQN 312 ergueu-se como um pequeno castelo de sonhos perdido no cerrado. Ao redor, havia apenas o silêncio das manhãs vermelhas de poeira, o cheiro agreste da terra úmida depois da chuva e uma vastidão que parecia não ter fim.

E foi nesse cenário quase lunar — ainda virgem, ainda cru — que um punhado de jovens começou a reinventar o mundo à sua maneira. Enquanto o país se afundava no torpor de uma ditadura que duraria 21 anos, eles ascendiam. Enquanto botas militares ecoavam pelo Planalto, ali ecoavam violões.

Ilha de concreto. No final da década de 1960, a 312 Norte surgia quase isolada na vastidão que ainda cercava o Plano Piloto. (Arquivo Público do DF)

Enquanto o medo se espalhava pelo resto do país, na SQN 312 florescia uma ternura rebelde — música, poesia, teatro, encontros — uma pequena Liverpool candanga, nascida em terreno baldio, sem pedir licença a ninguém.

A quadra completou 59 anos em 2025 e já se prepara para celebrar seis décadas de vida. “Em 2026 vamos trazer os Rolling Stones”, brinca o poeta ChicO Lima. A piada funciona porque, no fundo, todos sabem: naquela quadra, tudo sempre pareceu possível.

Os dias em que tudo começava

O termo soft power costuma designar centros irradiadores de cultura — e raramente uma expressão coube tão bem quanto cabe à SQN 312. Desde cedo, a quadra foi uma nascente de valores, ideias, estilos de vida, jeitos de falar, cantar, declamar. Nada ali era programado. Tudo brotava espontaneamente — e com uma força espantosa.

Desse terreno fértil surgiram três artistas que, mais tarde, ganhariam projeção nacional: Clodomir Ferreira (Clodo), Zeca Bahia e Antônio Cleves Nunes. Os dois poetas nordestinos, um piauiense e outro baiano — o adolescente José era conhecido simplesmente como Zequinha — eram presenças garantidas em toda roda, encontro, festinha ou serenata improvisada. Suas trajetórias, que depois se espalhariam pelo país, têm raízes profundas no chão batido da 312.

Tudo por começar. O poeta Olímpio Jr. caminha perto dos carros pela calçada da 312 ainda sem grama e com muita terra vermelha. (Foto: José Romildo/Acervo Olímpio Jr.)

A morte de Clodo, em julho de 2024, e a de Zeca Bahia, em fevereiro de 2018, despertaram um interesse renovado sobre suas vidas, especialmente sobre o instante inaugural, quando os dois descobriram que eram — sem saber — portadores de algo maior do que eles mesmos. E esse instante começou ali: na Doze.

Onde se testava o mundo

A dinâmica era simples: Clodo e Zequinha compunham uma música. No dia seguinte, já havia plateia. E plateia exigente. Os adolescentes se sentavam nos bancos, nas calçadas, nos pilotis, e ouviam. Comentavam. Aplaudiam.

Pedia-se “toca de novo”. Pedia-se “tem outra?”. E assim surgiam as canções. Uma atrás da outra. A quadra inteira funcionava como laboratório, estúdio, sala de ensaio, termômetro.

Já Cleves Nunes — guitarrista de talento singular — viveu apenas um ano na quadra, mas nesse curto período firmou-se no imaginário dos jovens do Bloco A e arredores. Clodo o admirava profundamente. E essa admiração se transformou, muitos anos depois, num daqueles momentos definitivos: uma apresentação conjunta na Sala Villa-Lobos, já nos anos 2000.

Foi quando Cleves executou um solo arrebatador para “Revelação”, o hit eterno de Clodo e Clésio — música nascida nos encontros ao ar livre ou nos apartamentos da 312, apresentada primeiro a poucos, ainda em versão íntima, adolescente, sem arranjos grandiosos, mas com o frescor da descoberta.

Naquela noite da Villa-Lobos, o solo de Cleves surpreendeu até quem conhecia de cor a versão imortalizada por Robertinho do Recife — solo que, com razão, se tornou quase o RG de “Revelação”. E ali, só ali, foi o solo de Cleves que fez a música ganhar outra pele, outra cor, outro brilho.

A revelação antes da “Revelação”

Também há uma história que poucos fora da 312 conhecem. Durante anos, “Revelação” era cantada com a letra de Carlos Drummond de Andrade. Sim — Drummond. 

“Amar o perdido
Deixa confundido
Este coração…”

Os versos se encaixavam com tal perfeição na melodia que ninguém jamais pensou em mudá-los. Até que, ao descobrir que já havia outra canção usando o mesmo poema, Clesio pediu a Clodo que escrevesse uma nova letra. Nasceu assim, quase por necessidade, a versão que atravessaria o país.

A solidão que virou cultura

É quase inacreditável, visto de hoje, que jovens entre 12 e 17 anos tenham construído uma vida cultural tão intensa. Nada parecia favorecer aquilo. O entorno da quadra era apenas cerrado. Não havia padaria, comércio, iluminação decente. 

O pão chegava num triciclo ruidoso, anunciado por uma buzina feita de balão e trompeta. Aquele som matinal era, para muita gente, o sinal de que o dia podia enfim começar.

A dificuldade, porém, não produziu desânimo — produziu imaginação. Quem não era da música estava no teatro. Quem não era do teatro estava no esporte. Quem não era do esporte queria apenas socializar — brincar de finca, correr de rolimã, juntar amigos, organizar festinhas. Tudo virava pretexto para estarmos juntos.

E havia os domingos, em que nós, jovens de ânimo ensolarado,  caminhávamos até a Água Mineral — oito quilômetros de mata adentro, sem estrada asfaltada. Os pés sujos de terra vermelha, as risadas ecoando entre árvores, a sensação de descobrir caminhos ao mesmo tempo físicos e afetivos.

Entre as caminhantes estavam as meninas do Fasali — Fátima, Isabel e Lígia — divertidíssimas, criativas, fundamentais na engrenagem social da quadra. As três eram estudantes do Colégio Santa Dorotéia, que ficava ali pertinho, na 911 Norte. 

Mais tarde, com Cristina (irmã de Clodo) e Fani, esse trio de graciosas garotas se tornaria a TVV — Turma do Vai e Vem. Elas eram as responsáveis por tardes de queimada, pequenas peças teatrais, brincadeiras elaboradas e, sobretudo, o espírito gregário que define a 312 até hoje.

O templo de cimento e a sala encantada

Em 1967, buscando um lugar para cantar à noite, nós escolhemos o passeio de cimento ao redor da casa de força da quadra. O espaço tinha uma vantagem: permitia cantarmos alto sem incomodar os vizinhos. Durante mais de um ano, aquele retângulo de cimento foi palco improvisado de encontros noturnos.

Quando a chuva e o frio chegaram, a turma migrou para uma sala ampla no Bloco D, usada pelo antigo DTUI. Ali, entre 1968 e 1970, germinou-se uma pequena revolução musical. 

Além de Clodo e Zeca Bahia, estavam também Paulo Afonso, Bruno, Luiz Alberto, Luiz Gonzaga, Maurício e outros tantos. O poeta Olímpio Júnior também frequentava a sala — e foi ali que nasceu “Suza, Suzana”, música minha, de Olímpio e Clodo, gravada pelos Matuskelos em 1972, precursor do rock brasiliense que explodiria anos mais tarde. A outra faixa do compacto era “A gente tem que ter“, uma canção do Clodo (clique nos links abaixo para ouvir as canções no YouTube).

OUÇA O COMPACTO
Lado A — “A Gente Tem que Ter”
Lado B — “Suza Suzana”

Também vale registrar que não éramos só cantores no grupo. As vozes femininas também tinham protagonismo, graças a Cristina, Ceiça, Lígia. Ceiça, especialmente, impressionava o público. Em seu repertório, duas de Roberto Carlos: “Quase fui lhe procurar” e “O tempo vai apagar”. 

Era Clodo quem tocava o violão, com arranjo diferente da gravação original e que ornou perfeitamente com a voz de contralto dela. Ainda sobre Ceiça, aua atuação mais memorável talvez tenha sido a interpretação de “Concerto em Fá Maior”, de Bach, acompanhada pelos violões de Luiz Gonzaga e Luiz Alberto, na missa das 10h da Igreja Nossa Senhora da Consolata, ali na 913 Norte.

Valéria — a guardiã da chama

Mas, a partir de 1970, os encontros migraram para o apartamento de Heloísa, no Bloco D, que anos depois viria a se tornar mulher do Clodo. Ela morava com as irmãs Anita, Ângela, Norma e mais duas amigas. Esse apartamento acabou se tornando um ponto de encontro para os jovens criativos daquele lado da 312. 

Mas o auge veio em 1972 — ano em que a quadra inteira parece ter respirado música. Na casa da cantora Valéria, tudo acontecia. Ela recebia a turma nossa com café, lanches e uma generosidade rara. Seu repertório vasto, sua voz firme e seu sorriso franco transformaram o apartamento num santuário cultural.

Clodo, Zeca Bahia, Olímpio Júnior, Alder Luna, Anita, Norma, Heloísa, Clara Lúcia Favilla, Márcia Brandão, Ijalmar Nogueira, Pedro Helvécio — todos passavam por ali. Foi naquele lar que muitas das canções que marcariam as carreiras de Clodo e Zeca Bahia tomaram forma.

Foi ali também que valores e amizades se consolidaram.

Foi ali que a 312 Norte se firmou, de vez, como um dos grandes berços culturais de Brasília — um castelo de sonhos erguido contra o silêncio da ditadura e alimentado pelo talento de uma geração inesquecível. ■

José Romildo é jornalista e ex-morador da 312 Norte. 

3 respostas a “Um castelo de sonhos no cerrado”

  1. Avatar de
    Anônimo

    Muito bacana. Como carioca admirador de Brasília adoro conhecer esses relatos pioneiros principalmente os relacionados à cultura. Também é um dos primeiros que leio sobre a Asa Norte. Muitos que li tinham lugar na Asa Sul e nas satélites. Parabéns ao Romildo por resgatar essa linda história de um “oasis” residencial e cultural que era a 312 Norte naquela época.

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  2. Avatar de
    Anônimo

    Muito legal essas histórias da 312 norte, Esse lado artístico da quadra é quase inimaginável para quem só conhecia as histórias da 312 dos anos 80, quando a quadra era a mais temida do plano, na época das gangues e da porradaria.

    Falavam que a quadra era de militares e que, talvez, por seus filhos serem criados dentro de uma disciplina muito rígida, existia uma certa “angústia” juvenil, que era exacerbada pelo grupo, na energia incontrolável de um coletivo.

    Parabéns pelo texto, a 312 N ficou ainda mais interessante.

    Renato Amu

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  3. Avatar de
    Anônimo

    cheguei na 312 Norte em 1.969 e sai em 1.988. Só tive bons momentos em que curtia o projeto CABEÇA, no gramado da entra da quadra. Como não falar das peladas no estacionamento entre os blocos J e K. Reunião da rapaziada no bar do Beto. São muitos momentos bons , de boas recordações. Abraço a todos.

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