Uma das bandas pioneiras da cena setentista da capital durou pouco, mas fez história. Som pesado e cabelos grandes em plena ditadura. E encerrou as atividades antes mesmo da virada da década
Em dezembro de 1976, o Correio Braziliense anunciou um show de uma banda que tentava encontrar seu lugar numa cidade onde fazer rock ainda era uma espécie de exercício de teimosia. Chamava-se A Nata.
O jornal apresentava quatro músicos de formações diferentes, reunidos havia quase um ano. Rogerinho na bateria, Cleves na guitarra, Humberto no baixo e Shorty nos vocais. A ambição era grande: trabalhar “dentro das características universais do rock”, acrescentando ao som “certos acentos particulares da música brasileira”.
Depois de muitos ensaios, idas e vindas e, segundo a reportagem, “trabalho duro e vontade”, o grupo finalmente se preparava para uma sequência de apresentações pela cidade.
Dois shows foram marcados para o Teatro da Escola Parque. O ingresso custava 20 cruzeiros.
Pode parecer pouco. Mas não era. Brasília tinha apenas 16 anos e sua cena musical ainda procurava lugares onde existir. Havia o Clube do Choro, compositores, músicos experimentais, gente fazendo samba, música instrumental e canção. O rock também estava ali — ainda sem a mitologia que a década seguinte construiria em torno da cidade.

No balanço musical de 1976, o mesmo Correio foi duro com a produção local. O título dizia tudo: “Música Popular: vazio no planalto”. Entre as poucas bandas de rock citadas estavam Sol Noturno, Tellah e Brita.
A Nata recebeu uma distinção curiosa: era “talvez o mais profissional da cidade”. O crítico não gostou de tudo. Reclamou que o grupo raramente escapava do rock pesado.
Sem querer, deixou uma pista.
Antes do punk. Antes da Turma da Colina. Antes de Aborto Elétrico, Plebe Rude, Capital Inicial e Legião Urbana, Brasília já tinha uma banda querendo tocar pesado.
ROCK É ALEGRIA DE VIVER
Em 1977, A Nata começou a aparecer pela cidade. Em abril, tocou num campeonato de skate no estacionamento do Cine Karim, na 110/111 Sul. O anúncio prometia “um rock da pesada”. O texto era assinado pelo jornalista e poeta Tetê Catalão.
A formação do grupo já havia mudado. Lá estavam Rogerinho, Cleves e Shorty. A sombra do Cream, de Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker, pairava sobre o trio. Não por acaso: Cleves permaneceria ligado ao blues e, décadas depois, montaria uma banda dedicada ao repertório de Clapton.
A colunista Consuelo Badra publicava naquele mesmo dia, 29 de abril, outra nota sobre o mesmo evento, apontando que o grupo faria “um concerto de rock no local ao ar livre, viva a liberdade, inteiramente grátis”.

Em junho, A Nata dividiu o ginásio da Caseb com o Tellah, de Brasília, e o Língua Solta, de Goiânia. Três horas de rock. O Correio apresentou-os como “os grupos de rock mais conhecidos da capital”. E dizia que as duas bandas encontravam no heavy metal que chegava dos Estados Unidos e da Inglaterra sua principal inspiração.
A Nata, porém, avisava querer fazer um som “popular e comercial”. E deixou ao jornal uma definição menos sisuda sobre o que estava fazendo: “Rock é uma válvula de escape para muitos que sofrem de solidão, rock é alegria de viver.”
Pouco depois, a banda foi ao Gama. O jornal já a chamava de “um dos melhores grupos do Planalto” e registrava algo ainda mais importante: havia repertório próprio. “Jardim de Flores”, “Ponte para o Infinito” e “Bote o Pé na Estrada” eram apresentadas como composições dos integrantes. O jornal noticia que o grupo vinha de uma apresentação bem-sucedida em Goiânia.
A cena estava se formando. Só ainda não sabia que seria chamada assim.
O ROCK PASSOU. O BLUES FICOU
A Nata não durou muito. Como tantas bandas de uma Brasília que ainda aprendia a construir sua própria cena naqueles intensos anos 70, o grupo deixou poucos registros, algumas fotografias, notícias de jornal e os nomes de músicas que hoje já não podemos ouvir.
Mas pelo menos uma das linhas daquela história continuou. Cleves nunca abandonou a guitarra. Seguiu nos palcos da cidade tocando blues e rock. Passou pela Filial Blues Band, pela Blueprint e permaneceu empunhando a guitarra muitas vezes em torno da referência que já rondava A Nata nos anos 70: Eric Clapton.
Na virada dos anos 2000, prestou shows-tributo a Eric Clapton, tocando no Gate’s Pub, Feitiço Mineiro, bares e casas noturnas da cidade. Em 2006, o Correio noticiou que Cleves foi longe: assistiu Clapton no Royal Albert Hall, em Londres. E pôde encontrá-lo pessoalmente. De volta a Brasília, montou um novo show-tributo, tocando clássicos como “Layla”, “Cocaine” e “Tears in Heaven”.

Em 2002, quando Clodo Ferreira fez um show na Sala Villa Lobos, no Teatro Nacional, Cleves estava lá, com sua guitarra. No palco do templo, executou um solo arrebatador para “Revelação”. Sua performance surpreendeu até quem conhecia de cor a versão imortalizada pelo guitarrista Robertinho do Recife.
Na Villa-Lobos, o solo de Cleves fez a música ganhar outra pele e cor. Um outro brilho. Não era mais A Nata. Clodo trazia outra história, outra turma, outras canções. Mas havia alguma coisa em comum entre aqueles músicos que começaram a inventar uma cena quando Brasília ainda era uma cidade adolescente.
Os grupos acabaram. Os palcos mudaram. Alguns amigos partiram. Mas o compromisso com a música — e uns com os outros — permaneceu. ■








Deixe um comentário